Como mapear riscos num mundo VUCA?

Por Julio Cardozo*

No mundo atual, as tecnologias se renovam a todo instante e a cada minuto hábitos de consumo são criados ou transformados, gerando incertezas e causando mudanças constantes no mercado. Com esse cenário desafiador podemos considerar que este ambiente conturbado pode ser o novo modelo de normalidade.

VUCA é um conceito que define bem este momento. O termo originou-se nos anos 1990 com estudantes americanos do US Army War College para descrever o contexto pós-Guerra Fria. O mundo VUCA, que em português significa Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade, foi incorporada ao vocabulário corporativo recentemente, quando os gestores financeiros começaram a perceber que o planejamento estratégico convencional não estava mais dando conta de prever os cenários prováveis do mercado.

A adaptabilidade e o preparo para as mudanças que o mercado exige são qualidades cruciais para manter-se competitivo. Portanto, entender o contexto em que cada organização se encontra é imprescindível para a sustentabilidade do negócio, pois afeta diretamente a maneira como a empresa planeja o futuro, gera seus riscos, toma decisões, executa mudanças e resolve intercorrências.

Agora vamos entender mais sobre o conceito do mundo VUCA e o mapeamento de riscos nas organizações. Na era digital, a informação viaja a uma velocidade surpreendente. Atualmente, quase toda a população tem um celular com acesso à internet e perfis nas redes sociais, plataformas de disseminação de dados em massa.

Um exemplo claro é a origem da primavera árabe, que foi fomentada pelo ato de protesto suicida de um vendedor tunisiano que ateou fogo no próprio corpo por ter tido o lucro do dia (aproximadamente U$ 7,00) confiscado pelas autoridades. Naquele momento, em 17 de dezembro de 2010, se as pessoas não tivessem seus celulares para filmar e fotografar aquele ato do vendedor de frutas chamado Mohamed Bouazizi, a situação talvez não servisse de combustível para os jovens iniciarem uma revolução. Algo que foi possível graças aos milhares de compartilhamentos e acessos que as cenas ganharam.

O mapeamento de riscos nas organizações deve levar em consideração tais preceitos de Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade para entender situações, que, como aconteceu no exemplo citado, não aconteceriam ontem, da mesma forma como podem acontecer amanhã. Dada a questão tecnológica, o mundo hoje está ainda mais sujeito a black swans (cisnes negros), eventos possíveis, mas até há pouco inimagináveis. Este termo tem origem na época em que os primeiros navegadores chegaram ao continente australiano e se depararam com cisnes negros, animal sem registros para os viajantes europeus.

Por mais recente que o mundo VUCA seja, os exemplos que servem como base de análise para entender os prováveis movimentos do mercado mudam com muita velocidade, quantas situações como a primavera árabe aconteceram tendo como linha de entendimento estes preceitos?

Para saber como fazer o mapeamento da sua organização de acordo com o mundo VUCA algumas perguntas devem ser respondidas: O seu modelo de negócios pode ser fortemente afetado por variações nas taxas de câmbio, juros? Decisões políticas? Escândalos e decisões judiciais?

Sendo assim, estar suscetível a mudanças é um fato imutável, contudo, o planejamento e organização prévios são medidas cautelares capazes de conter a grande imprevisibilidade do mercado que o mundo VUCA oferece. Muito mais cuidado deve ser dado aos riscos desconhecidos, pouco prováveis, mas de grande impacto (cisnes negros) do que aos riscos conhecidos do dia a dia, que têm impacto de baixo a moderado.

Julio Cardozo é diretor executivo de Riscos no Banco Cooperativo Sicredi

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