Morrer de fome ou morrer de covid?


Foto: FABLICIO RODRIGUES / ALMT

É lamentável que o colapso da política institucional brasileira tenha levado as pessoas à equivocada dicotomia entre morrer de fome ou morrer de covid. Como se o Estado se eximisse da responsabilidade de cuidar da vida e da saúde da sua gente, ao mesmo tempo em que deveria promover pacotes de estímulo à economia e ao setor produtivo, beneficiando trabalhadores e empresários.

Entramos no segundo ano de pandemia sem qualquer projeto, planejamento ou articulação entre poderes executivos, federal, estaduais e municipais no sentido de conter a disseminação do vírus. Vimos tudo aberto e liberado no natal, réveillon, carnaval e até hoje o comprovadamente ineficaz kit-covid é distribuído como a única política de prevenção.

O Brasil nunca teve um lockdown de fato, o que existiu foram somente algumas restrições. Em Mato Grosso, a tentativa de decreto por parte do governo enfrentou resistência de municípios e da população. O fato é que estamos abertos até hoje, mesmo em meio ao colapso sanitário e UTIs lotadas há quase um mês, com fila de espera que ultrapassa 200 pessoas.

É óbvio que todos nós temos o sentimento e o desejo de retorno à normalidade, porém isso só será possível com a aceleração e ampliação da vacinação. Mato Grosso hoje é o estado que menos vacinou no Brasil, e esta deve ser nossa grande prioridade. Só a vacina trará a saída para essa crise, tanto sanitária como econômica.

O cidadão não deveria ter que escolher entre as únicas duas opções oferecidas pelo poder público: morrer de fome ou morrer de vírus. Como poderíamos retornar as atividades escolares presenciais com milhares de estudantes frequentando escolas públicas sem condições adequadas, sem vacinação e no ápice do contágio, com o estado registrando recordes de vítimas?

É fato que a nova cepa, a variante P1 do coronavírus, é muito mais contagiosa e letal, não restringindo os efeitos graves somente aos idosos, mas impactando todo o espectro social. Pesquisas demonstram o alto índice de óbitos entre profissionais de setores essenciais, como  militares, garis e motoristas de ônibus com idades variadas.

A reabertura das escolas públicas hoje é um risco à saúde, uma vez que a transmissão do vírus não está limitada somente ao ambiente escolar, mas pode se propagar pela família e pelos ambientes comunitários (supermercados, farmácias, feiras…) que inclusive registram altos índices de carga viral, de acordo com pesquisadores da Fiocruz.

O cientista Miguel Nicolelis tem alertado para aquilo que os pesquisadores chamam de superspread, um evento sincronizado de transmissão em massa, assim como ocorreu nas festas de fim de ano e carnaval. Isso poderia levar o vírus a um patamar irreversível.

Vemos hoje o exemplo de Joe Biden nos EUA, que criou 916 mil novos empregos só no último mês, derrubando a taxa de desemprego para 6%. Investiu em vacinas e terá todos os adultos vacinados a partir de maio, além de anunciar um pacote de estímulo econômico de mais de 2 trilhões de dólares.

Mato Grosso é um estado rico e temos um setor produtivo que pouco sentiu os efeitos da pandemia, pelo contrário, se beneficiou da alta do dólar e das exportações e inclusive ajudou a elevar o preço da cesta básica no supermercado. Não existe precedente no mundo de um país que aumentou o preço da comida progressivamente com o aumento da pandemia.

Alguém viu notícias de algum avião dos barões do agronegócio ajudando no transporte de oxigênio? Ou fazendo uma doação de ítens como kit intubação e materiais hospitalares para UTI? Aproveitando a estreita conexão com a China nos negócios para importar respiradores ou mesmo comprar vacinas? Qual a contrapartida que deixam para as pessoas de toda riqueza que acumulam em nossa terra?

Esse é o momento para darmos um salto civilizatório. Sensibilizar a sociedade como somos, uma grande comunidade de seres humanos que precisam atuar juntos para a sobrevivência. Não temos tempo para um jogo de empurra entre poderes executivos, não há tempo para intrigas entre governador e prefeito.

Somos o lanterninha da vacinação e se não acelerarmos, ao invés de celeiro do mundo, poderemos nos transformar num grande laboratório de mutação do vírus e continuaremos a amargar mais crises. E é neste ponto que devemos concentrar todos os nossos esforços agora: Vacina Já!  

*Allan Kardec Benitez é Professor da rede estadual de Educação, possui mestrado e doutorado em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT, é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Deputado Estadual e presidente do Diretório Estadual do PDT-MT.

Fonte: ALMT

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